terça-feira, 26 de abril de 2011

Instrução Bacellar

"Se queres prever o futuro, estuda o passado." (Confúcio)

Bacellar, INSTRUÇÃO!!!

Se você quer continuar a ser militar, é fácil. É só considerar algumas características de nossa estruturação. Os regulamentos resumem no seguinte:

O segunda-classe fica mais ou menos quatro anos.
O primeira-classe fica no máximo 6 anos.
O cabo estabilizava, e dizem que não adquire mais estabilidade.
O resto é estabilizável.

Quando fui S2, tudo o que tive de fazer foi passar o mais rápido possível para o nível seguinte. Fugi da baixa. Tive de desenvolver a disciplina de estudar duas horas por dia ou mais para cada concurso. Você estuda melhor se estudar em casa.

A maior parte de meus colegas saía para o frevo. “Pra ‘Night’”, como dizíamos. Eu não podia: minha namorada tinha acabado de engravidar. Quando soube, fiquei mais concentrado em manter os poucos recursos que são essenciais: hospital, remuneração, dentista... o que a caserna tinha a oferecer naquela época.

Enquanto estudava, imaginava o que seria trabalhar em outros lugares da... empresa! Vamos chamar a nossa Força de empresa.

A empresa só não oferecia clube pra gente, o resto era relativamente acessível.

Pra ficar na empresa meu pai costumava pagar os cursinhos preparatórios, principalmente de português e matemática. Isso ajudou bastante. Sou consciente da sorte de ter sido patrocinado pelo meu pai. Ele pagava sem reclamar.

Daí, com a namorada grávida, estudei e me tornei primeira-classe. No primeiro concurso aberto pela Aeronáutica para Soldado Especializado. Fui o primeiro soldado especializado em Comunicações de Brasília.
Só que como soldado não conseguiria a estabilidade. Abriram vagas para cabo, inclusive Comunicações. Só tinha eu de concorrente (somente soldados especializados podiam fazer para cabo, a partir desse concurso). A vaga era para o Ministério da Aeronáutica. Estação ZWT-26 (TRABALHO PRA CARA...*). Imaginei o ambiente: um monte de pica-grossa mau-humorado, tapinhas nas costas e muito cafezinho.

Deixei a vaga pra lá.

Fiz o outro. Mas aí já eram dois concorrentes. Eu trabalhando no Cindacta e o outro na Base Aérea. A gente se encontrou antes das provas e o cara dava a entender que estava realmente interessado na vaga. Me disseram que ele estava cursando na época o preparatório Santos Dumont – em Taguatinga.

Acho que ninguém tinha dito a ele que eu já tinha feito esse curso. Duas vezes.

Decidi estudar em casa. Enquanto o oponente gastava tempo e dinheiro se deslocando ao cursinho, eu aproveitava o tempo em casa. Sabendo que muito o que é ensinado no cursinho eu já sabia, passei a me concentrar nas matérias que precisava aprender.

Foi o suficiente. Em matemática, nossas notas foram relativamente próximas. Mas em Português e Conhecimentos Específicos da Especialidade ele deve ter se enrolado. Passei para a única vaga. Na própria Unidade que servia.

O bizu é esse: suplante seu concorrente estudando mais ao longo do tempo que ele. Tenho certeza de que a rotina de meu oponente, à época, era muito mais estafante.

Para sargento a estratégia não foi diferente, a não ser ter que estudar uns 6 meses a mais do que precisei para cabo. Mas foi um repeteco.

Às vezes me vem à memória porque decidi permanecer na Fab, e não partir para algum concurso que me desse mais vantagem financeira.

Conhecimento.

Mas é um poder diferente do que os civis entendem. Não tem a ver com dinheiro, não tem a ver com status. Tem a ver com saber o que fazer quando os outros estiverem realmente enrolados.

Militar tem o poder de desenvolver tudo o que está à sua volta, quando quer. Onde tem um destacamento da Amazônia muitas vezes tem uma cidade inteira se desenvolvendo.

Observe o lugar à sua volta. Criaram uma cidade inteira onde só havia alguns militares trabalhando.

A dica nº1 é essa: crie tempo para estudar. Produza com eficiência suficiente para poder cumprir a missão dependendo o mínimo dos outros. Tenha suas próprias ferramentas automotivas, escolares e use todo seu conhecimento para fazê-lo.

A dica nº2 é posicionamento. Antes de iniciar qualquer atividade, você precisa saber exatamente como está. Precisa saber se seu conhecimento de matemática ou português são capazes de suplantar ou fazer face qualquer concorrente.

A dica nº3 é montar um bom grupo. Procure colegas que não queiram ou não possam fazer cursinho.

A dica nº5 é manter a motivação. Você precisa manter seu cérebro com a convicção de lembrar assuntos de prova. O que te motiva a estudar normalmente é o que motiva todas as pessoas. Vontade de ter alguma autonomia.

Autonomia é abrangente: inclui algum dinheiro para levar a namorada para um lanche, pagar um ou outro motel ou abastecer o carro e pescar. Tanto faz. A maior parte das coisas podem ser resumidas em uma só:

Ter recursos para fazer o que se queira.

Quando eu era soldado morava na SQS 214. Era um saco: só tinha filho de milico. Eu era um deles. A maior parte de meus colegas de rua tinha como objetivo ter seu próprio canto. Pra comer gente, é claro. No nosso ponto de vista era desconfortável marcar uns amassos com a namorada para os dias em que a sogra fazia compras. Com a inflação comendo solta, nossos pais só faziam compras no dia 5 de cada mês. Tinham de enfiar a comida para um mês inteiro no fusca (e imagine que naquele tempo era difícil ter um bom fusca).

Isso significava uma gala por mês, camarada. Com sorte duas.

Então a maior parte dos colegas acabava por considerar que precisavam sair um pouco do centro da cidade. Ouviam histórias de colegas que pescavam, caçavam ou simplesmente andavam pelas estradas molhando a cabeça nos córregos do Goiás. Pra quem vive em apartamento, isso é uma liberdade imensa.

A solução passou a ser trabalhar para comprar um carro. Com um carro não tinha papo de motel. Era “banquéu-traseiréu-do-carréu” e ponto final.

Como dizia texto acima, filho de milico era uma desgraça. De “sub”, então – fudeu! Éramos umas pestes que sabíamos que nossos pais davam falta da chave do carro e davam esporro, mas pegávamos o carro assim mesmo. Era como se fazer merda fosse nossa única alternativa. Na década de 80 um carro custava tanto quanto hoje. A diferença é que não tinha essa conversa fácil de financiamento. A maior parte dos carros era paga “no coco”. No máximo em cheques.

O estacionamento da superquadra, projetada por Niemeyer, comportava um carro por família. Não era toda família que tinha um carro, e muitas vezes sobrava vagas. Reflexo da década de 70, na qual pouca gente podia adquirir um bom veículo, gente da minha geração tem verdadeira paixão por veículos. Principalmente motocicletas – que eram raras naquele tempo. Um tempo no qual não se exigiam capacetes, e as quedas faziam famílias inteiras condenarem as motos, não a falta de um equipamento tão básico.

Só para “massificar”: era difícil ter casa, carro e moto.

Casa para ter para onde levar a gatinha, carro para não pegar chuva e moto para conhecer os riachos e lugares de sua região. E só. Um milico se dava por feliz em atingir esses objetivos.

Se você quer uma boa motivação para estudar com mais afinco, pense no que quer ter. Imagine-se morando em um local que você conheça e goste, com uma “mina” bacana do lado (ou ao lado, tanto faz). Pense em que carro quer ter, que moto quer ter e quanto irá custar atingir esse objetivo. E procure pensar nos detalhes do que quer: hoje em dia têm coisas que antigamente não tinham e ajudam sobremaneira lidar com a rotina diária – TV a cabo, Playstation, equipamentos de som de ponta. Pense no custo do sonho completo não como um fator que leve a pensar que seja caro, mas algo que você consegue medir.

Na maior parte das vezes você vai perceber que não é tão caro assim. E que vale a pena.

Se o custo de um salário de R$ 5.000,00 for saber português, matemática e direito constitucional, está barato.

Resumo: estabeleça seu objetivo, calcule o esforço para atingi-lo e estabeleça sua própria rotina de estudo. O mais importante: mantenha em mente sempre seus objetivos.

Se o pessoal do frevo zoar, não deixe pensarem que você está dando exemplo.

Explique para eles porque você está estudando. Alguns certamente se unirão a você.

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